terça-feira, 12 de abril de 2011

progressão: mètro

















O homem, ser de hábitos e de rotinas, mesmo perante o cenário mais hostil, caótico e/ou calamitoso, quando a ele exposto repetida e quotidianamente, rapidamente são activados mecanismos de memória, desenvencilhamento e outros que o valham, para lhe fazer face. Mesmo perante a situação mais díspare do supunhamos (e isto é um supônha-mos!) estar aptos a fazer face, basta-nos tempo e exposição prolongada à nova realidade para que a coisa se afigure mais vivível.


Mecanismos de adaptação ou de sobrevivência, podem dizer.



A primeira vez que vi o Mapa do Metro de Paris entrei em choque anafilático, seguido de um confrangimento das vias respiratórias e um aumento do ritmo cardíaco. Não foi melhor quando cheguei a Paris. Nos primeiros dias a ansiedade foi muita: para pedir informações nos balcões e ter de pedir várias vezes para repetirem o que me estavam a dizer mais devagar, gerando filas e filas atrás de mim de pessoas impacientes e prontas a atirar-me com um jornal para a cabeça; a tentar falar em inglês e ser olhada como incredulidade, como se estivesse a falar a língua mais exótica do mundo, e a perder minutos a fio a decifrar as linhas, direcções e paragens mais convenientes para me guiar na nova vida à Paris.


nos primeiros dias achava razoável dizer: bom, agora vou seguir pela linha azul, ou ah!perfeitamente, isso fica na linha vermelha. Até me terem chamado a atenção para a lógica de referência das linhas de metro ser baseada nos números das linhas (há 16) e não as suas cores, e de facto se tivesse realmente pensado um pouco isto é absolutamente lógico (e prático!), não fosse o amplo espectro de cores do metro levar-nos a dizer: Então, agora vais para a linha azul-bebé, azul-petróleo ou azul-indigo? Ou antes para a linha fúcsia, amarelo-torrado, amarelo-açafrão?


Circular no Metro implica destreza, reflexos rápidos à la Matrix para fugir aos encontrões e embaraços gerados pela circulação de uma grande massa de pessoas, atenção (com os pertences, nomeadamente carteiras e mochilas, os roubos são um perigo constante), resistência física (chegam a percorrer-se grandes distâncias labirínticas no sub-solo, sobretudo no cruzamento das linhas, e a subir/descer escadas vezes sem conta), algumas moedas nos bolsos (a probabilidade de encontrar pedintes-artistas é incrível, e o acto de pedir-uns-tostões atingiu, em Paris, um elevadíssimo grau de sofisticação: violoncelistas, flautistas, saxofonistas, Bob-Dylans, pessoas com kit's-karaoke, geralmente da América do Sul, e outros talentos vários esperam sempre a sua moedinha)


Andar de metro chega a ser, para mim, e sobretudo com o tempo em que lhe comecei a tomar o gosto, para além de um meio para chegar a algum lado, um fim em si mesmo, um acto de epifania, de resistência e interioridade, onde chego a enraivecer-me, com todas as formas do meu ser, com a difícil vida parisiense, e também onde vou buscar forças para seguir o caminho. E me reconcilio com Paris.


Sempre, sempre com aquela voz:




Attention a la marche en descendant du train.





2 comentários:

  1. Engraçado, só lá estive 5 dias, mas pareceu-me uma rede de metro de fácil circulação (apesar de ser constituída por muitas linhas e pontos de confluência). =)

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  2. ehe eu nao a acho muito user-friendly mas aos poucos a coisa foi-se entranhando! infelizmente no meu percurso diário passo por 2 nós/confluências de linhas das mais movimentadas do mundo (dizem) que é Châtelet-Les Halles, já me aconteceram pérolas como ter de esperar por 5 metros até conseguir entrar num, e ainda me sentir esmagada lá dentro...E a difícil sinalização, bom, quando a minha referência é o metro de Lisboa...
    :)

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